

Prefácio do livro INTRODUÇÃO À GEOGRAFIA CULTURAL
Organizadores:
Roberto Lobato Correa
Zeny Rosendahl
A Geografia Cultural pode ser definida como o subcampo da Geografia que analisa
a dimensão espacial da cultura. Tradicionalmente, desde o começo
do século XX, essa dimensão espacial tem sido focalizada por intermédio
de temas como os gêneros de vida, a paisagem cultural, áreas culturais,
a história da cultura no espaço e ecologia cultural. A produção
dos geógrafos foi extensa e rica, sobressaindo particularmente a produção
da Escola de Berkeley, cujo expoente foi Carl Sauer.
A partir da segunda metade da década de 1970, verificou-se na Geografia
Cultural uma significativa mudança, calcada em outras referências
teóricas e metodológicas, que produziu uma nova agenda de investigação.
De um lado, a Geografia Cultural é influenciada por aportes das filosofias
dos significados, do materialismo histórico e dialético e das
humanidades em geral. De outro, amplia-se o temário, incorporando os
temas tradicionais, agora submetidos a uma nova leitura, e agregando outros,
até então estranhos à Geografia Cultural.
Nessa mudança, o conceito de cultura é repensado. A cultura não
é mais vista como entidade supra-orgânica, nem como superestrutura.
A cultura diz respeito às coisas correntes, comuns, apreendidas na vida
cotidiana, no seio da família e no ambiente local. Idéias, habilidades,
linguagem, relações em geral, propósitos e significados
comuns a um grupo social são elaborados e reelaborados a partir da experiência,
contatos e descobertas – tudo isto é cultura, e, em uma sociedade
de classes, é possível, como propõe Raymond Williams, falar
em cultura dominante e culturas alternativas, isto é, residuais e emergentes.
A cultura contém e está contida em um ambiente político.
A diversidade cultural, por outro lado, é reavaliada e confirmada.
A Geografia Cultural, tanto em sua tradição saueriana como vidaliana,
e na versão atual, centrada nos significados atribuídos pelos
diversos grupos sociais ao mundo real em todas as suas manifestações,
não se constitui, até o final da década de 1980, em objeto
de interesse por parte dos geógrafos brasileiros. As razões são
várias. A partir dos anos 90, o crescente interesse pela dimensão
espacial da cultura foi despertado. A criação, em 1993, do NEPEC
– Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Cultura –
no Departamento de Geografia da UERJ reflete esse interesse. A criação
do periódico Espaço e Cultura, da série de livros “Geografia
Cultural” e a realização de Mesas redondas e Simpósios
dão visibilidade a esse interesse que envolve um número crescente
de geógrafos que têm trilhado caminhos distintos no âmbito
da Geografia Cultural.
O presente livro apresenta uma introdução à Geografia Cultural.
Procura assim contribuir para que o interesse seja ampliado. A seleção
dos textos procurou cobrir artigos que dêem conta, no plano teórico,
da rica trajetória da Geografia Cultural. Inicia-se com um artigo de
Sauer datado de 1931, seguindo-se a introdução, redigida por Wagner
e Mikesell, feita ao livro Readings in Cultural Geography, publicado em 1962.
Nela, os temas da Geografia Cultural saueriana são discutidos. Os textos
de Cosgrove e Duncan representam as críticas à geografia saueriana.
O pequeno e denso texto de Cosgrove e Jackson nos introduz às proposições
da denominada Nova Geografia Cultural. A Geografia Cultural francesa não
poderia estar ausente da coletânea. É Paul Claval que nos brinda
com um apanhado a respeito da contribuição francesa a esse subcampo
da Geografia. Os dois últimos textos explicitam a abordagem cultural
às temáticas do urbano e da religião.
Esta coletânea está longe de esgotar as possibilidades da Geografia
Cultural. Se ela incitar reflexões teóricas complementares ou
divergentes e estudos empíricos sobre o Brasil terá atingido o
seu mais importante objetivo.