A Coleção “Geografia Cultural”


A partir da publicação em 1996 do livro Espaço e Religião: Uma Abordagem Geográfica, de Zeny Rosendahl, decidiu-se criar a série “Geografia Cultural”, a qual tem um logotipo e um padrão bem definido. São livros pequenos, cada um com uma única cor que, no entanto, apresenta-se em “degradé” de baixo para cima.

Esta coleção visa, de um lado, oferecer ao público de língua portuguesa, longos textos de autores brasileiros a respeito de uma temática cultural. De outro, oferecer conjuntos de textos traduzidos sobre uma mesma temática, enriquecendo assim a base teórica dos geógrafos brasileiros interessados na dimensão espacial da cultura. De outro lado ainda, a coleção “Geografia Cultural” divulga o material apresentado nos Simpósios Nacionais sobre Espaço e Cultura, realizados pelo NEPEC.

Na primeira vertente estão os livros de Zeny Rosendahl, o já mencionado Espaço e Religião: Uma Abordagem Geográfica, e Hierópolis: o Sagrado e o Urbano, da mesma autora, publicado em 1999. Representam eles, juntamente com os inúmeros artigos sobre religião publicados no periódico Espaço e Cultura, a ênfase atribuída pelo NEPEC à geografia da religião, um dos eixos temáticos do núcleo.

Para os três Simpósios organizados pelo NEPEC, 1998, 2000 e 2002, foram publicados e lançados em cada um dos eventos, um conjunto de quatro livros da coleção “Geografia Cultural”. Contém, cada um deles, um conjunto de traduções de textos fundamentais para o desenvolvimento da geografia cultural no Brasil.

O primeiro, Paisagem, Tempo e Cultura, publicado em 1998, traz o clássico A Morfologia da Paisagem, de Carl Sauer, publicado originalmente em 1925 e considerado como o marco inicial da denominada Escola de Berkeley. O segundo, dos austríacos Hans Bobek e Josef Schmithüsen, A Paisagem e o Sistema Lógico da Geografia, foi publicado originalmente em 1949 e representa outra perspectiva de análise da paisagem. Augustin Berque brinda o leitor com o seu Paisagem-Marca, Paisagem-Matriz: Elementos da Problemática para uma Geografia Cultural. Também da década de 1980 é o último texto, de Denis Cosgrove, A Geografia Está em Toda a Parte: Cultura e Simbolismo nas Paisagens Humanas. É neste texto que o autor lança os conceitos de paisagem da cultura dominante, residual, emergente e excluída.

Os três outros livros, Geografia Cultural: Um Século, (1), (2) e (3) foram publicados, os dois primeiros em 2000 e o terceiro em 2002. Trata-se de um esforço em reunir textos que possam reconstituir momentos cruciais da história da geografia cultural: o primeiro deles reporta-se à Escola de Berkeley, com um pouco acessível texto de Sauer escrito em 1927, no qual o autor procura resgatar a história do pensamento geográfico desde a segunda metade do século XIX. Seguem-se outro texto de Sauer, publicado em 1931 e, finalmente, a longa e elucidativa introdução que Philip Wagner e Marvin Mikesell fizeram para apresentar em 1962 o já clássico Readings in Cultural Geography.

O segundo apresenta textos relacionados à denominada nova geografia cultural, tendo sido publicados nas décadas de 1980 e 1990. Denis Cosgrove, Peter Jackson, James Duncan, nomes chaves da nova geografia cultural assinam três dos quatro textos do segundo volume. Referem-se eles às novas perspectivas que à época abriam-se à geografia cultural. O último texto, de autoria de Marvin Mikesell, sugere que os debates entre geógrafos da Escola de Berkeley e os novos geógrafos culturais estão encerrados.

O terceiro livro da trilogia refere-se à geografia cultural francesa. Inicia-se com as reflexões de Max Sorre sobre o valor atual dos gêneros de vida, um tema clássico da geografia vidaliana. Segue-se o texto de Jean Gallais sobre o espaço vivido nas sociedades primitivas do mundo tropical. Jöel Bonnemaison brinda o leitor com o relevante Viagem em Torno do Território, no qual a geografia cultural francesa é apresentada ao leitor. Encerrando o livro Paul Claval sugere caminhos a serem trilhados pelo geógrafo cultural.

Organizados por Roberto Lobato Corrêa e Zeny Rosendahl, os quatro livros devem preencher importante lacuna na biblioteca dos geógrafos brasileiros. Quatro outros livros compõem a coleção Geografia Cultural. Organizados por Zeny Rosendahl e Roberto Lobato Corrêa, contêm os textos apresentados nos simpósios realizados em 1998, um livro, e no de 2000, três livros.

Manifestações da Cultura no Espaço, fruto do Simpósio de 1998 contém a conferência de Denis Cosgrove, convidado do evento, sobre a Geografia Cultural no Milênio. O livro divide-se em duas partes. Na primeira, questões teóricas da geografia cultural e avaliações sobre a disciplina são discutidas por Roberto Lobato Corrêa, Paul Claval, Paulo César da Costa Gomes e William Hoefle. Na segunda, as relações entre paisagem e imaginário são discutidas por Werther Holzer, enquanto Rogério Haesbaert discute as identidades Territoriais. As festas populares são analisadas por Carlos Eduardo Santos Maia e as relações entre espaço e religião por Creusa Capalbo e Zeny Rosendahl. Este quarto livro da coleção “Geografia Cultural” revela a existência de uma já estabelecida geografia cultural no Brasil, capaz de fazer reflexões sobre temas culturais.

Com maior número de participantes e contando com o apoio da EDUERJ, o segundo Simpósio, realizado em 2000, gerou três livros. O primeiro Matrizes da Geografia Cultural representa o esforço de resgatar as bases da disciplina, de crucial importância para o desenvolvimento da geografia cultural no Brasil. Sauer e a Escola de Berkeley (Roberto Lobato Corrêa), Eric Dardel (Werther Holzer), Yi-Fu Tuan (João Baptista Ferreira de Mello), as relações entre espaço e economia (Gisela Aquino Pires do Rio) e as contribuições da nova geografia cultural (Paul Claval) compõem o livro em tela.

Paisagem, Imaginário e Espaço é o segundo dos três livros. Contém textos sobre a paisagem cultural, enquanto um conjunto de formas portadoras de significado. Maria Teresa Luchiari, Vera Mayrinck Melo, Edvânia Gomes, e Jorge Luiz Barbosa e Aureanice de Mello Corrêa mostram em seus textos a riqueza da paisagem cultural a ser interpretada pelos geógrafos. O imaginário é temática abordada por Iná Elias de Castro ao estudar a natureza e a reinvenção do Nordeste, enquanto o litoral e o sertão, a praia carioca no século XIX e o espaço do turismo são objetos de leitura por Pedro Pinchas Geiger, Mauro Gil Ferreira e Silva e Luzia Neide Coriolano, respectivamente.

Religião, Identidade e Território encerra o conjunto de livros relativos ao Simpósio de 2000. A religião é discutida em suas relações com a política por Zeny Rosendahl, enquanto Sylvio Gil Filho e Ana Helena Gil propõem relações entre identidade religiosa e territorialidade. Wolf Sahr, por sua vez, aborda aspectos da religião afro-brasileira. A identidade é objeto de interesse de Eduardo Yazigi, relacionando a natureza como identidade espacial do turismo. É também foco de interesse de Paulo César da Costa Gomes, que aborda o espaço público, de Rogério Haesbaert que discute suas relações com a des-territorialização, de Marcelo Lopes de Souza ao discutir questões associando território, alteridade e o próprio e de Carlos Eduardo Santos Maia que aborda a questão sob a perspectiva da festa.

A coleção “Geografia Cultural”, deste modo, ofereceu aos geógrafos brasileiros um amplo conjunto de textos, originais e traduções, envolvendo questões teóricas e a obra de alguns autores importantes, bem como contribuições temáticas relativas à religião, paisagem, identidade, imaginário, território e festas. Espera-se que as inúmeras contribuições sejam de utilidade para a geografia brasileira. A todos que contribuíram para a coleção, o reconhecimento do NEPEC. Entre eles a EDUERJ, Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, merece um agradecimento especial, Renato Casimiro, Rosania Rolins, Heloisa Fortes e os revisores, em particular.