O Periódico Espaço e Cultura


Um núcleo de pesquisas ganha maior visibilidade por meio de suas publicações. Um periódico é, neste sentido, um veículo ideal, pois de modo regular publica artigos, resenhas e informações vinculadas aos interesses temáticos do núcleo. O núcleo de pesquisas, por outro lado, adquire maior autonomia no sentido de difundir os temas em torno dos quais o núcleo justifica a sua existência.

Antes de completar dois anos o NEPEC lançou, em outubro de 1995 o periódico Espaço e Cultura. Seu lançamento se deu no âmbito de uma mesa-redonda, patrocinada pelo NEPEC.

Em seu primeiro e modesto número, Espaço e Cultura era uma produção “artesanal”. Sua capa de cartolina leve é de cor creme. Possui 83 páginas e além da apresentação, assinada por Zeny Rosendahl, a Editora-Chefe, a revista tem três artigos e uma bibliografia. Abrindo a revista Roberto Lobato Corrêa apresenta o artigo A Dimensão Cultural do Espaço, com a intenção de introduzir os geógrafos brasileiros à geografia cultural, mostrando como o espaço está impregnado de cultura. Paisagem cultural, percepção ambiental, espaço e simbolismo e cultura e lugares centrais são alguns dos temas que a geografia cultural considera e que o autor apresenta. A alma dos lugares, no que concerne à centralidade, sob a perspectiva do indivíduo e grupos sociais, é apresentada por João Baptista Ferreira de Mello. A orientação adotada é a da geografia humanista e a referência espacial é a cidade do Rio de Janeiro com suas múltiplas centralidades. O terceiro artigo, de Zeny Rosendahl, diz respeito às relações entre geografia e religião. Quatro são os temas por meio dos quais essas relações podem ser vistas: (a) fé, espaço e tempo – difusão e área de abrangência; (b) os centros de convergência e irradiação; (c) religião, território e territorialidade; e (d) espaço e lugar sagrado – vivência, percepção e simbolismo. Ressalte-se que esses quatro temas foram, posteriormente reavaliados e deles surgiram as dimensões de análise do sagrado e profano, publicadas em Introdução à Geografia Cultural em 2003 pela Bertrand Brasil.

A revista Espaço e Cultura em seu primeiro número inaugura a divulgação de bibliografia sobre temas específicos interessando à geografia cultural. O primeiro número brinda o público com uma pequena bibliografia sobre a discussão teórica em geografia cultural.

A revista, que nascera modesta, cresceu e se tornou mais rica. A partir do número dois tornou-se maior, com outro formato, 21,0cm x 29,4cm. Sua capa trazia uma cópia do bico-de-pena de Percy Lau A Casa de Farinha. Sua produção não era mais amadorista e já possuía certidão de existência, ISSN e CDU. Além do Editor-Chefe Zeny Rosendahl, tem um Conselho Editorial, Roberto Lobato Corrêa, Zeny Rosendahl e João Rua, e um Conselho Consultivo, constituído por um antropólogo, José Flávio Pessoa de Barros, um teólogo, Leonardo Boff, um filósofo, Creusa Capalbo, um sociólogo, Pedro Ribeiro de Oliveira, e dois consagrados geógrafos, Paul Claval, professor da Sorbonne, e Milton Santos, da USP. Outras formalidades passam também a figurar na revista.

Maior, mais formal e bonita, Espaço e Cultura tornou-se também melhor. Sem, contudo, deixar de passar por problemas administrativos, os quais se traduziram em erros de impressão e na necessidade de se agrupar os números 9 e 10 e 11 e 12 em apenas dois volumes.

Uma clara política editorial marca Espaço e Cultura. Qualidade e nítida vinculação à geografia cultural francesa, da Escola de Berkeley ou da denominada nova geografia cultural, não importa, constituem os dois primeiros critérios para aceitação ou seleção de um texto.

Tendo em vista a quase total inexistência de textos teóricos sobre geografia cultural, foi adotada a política de publicar traduções de artigos considerados fundamentais, que ajudam na formação de uma geografia cultural brasileira. Inúmeros foram os textos assim transcritos. Foram enfatizados os temas relativos à natureza da geografia cultural, com textos de Sauer, Platt, Claval, Taillard, Sivignon e de Miossec, Picheral e Bousnina. Neste conjunto está um clássico “Geografia Cultural”, publicado por Sauer em 1931. A crítica e o debate entre geógrafos culturais mereceram também a atenção. A crítica de James Duncan à visão supraorgânica da cultura e a crítica de Raymond Williams sobre a visão da cultura como superestrutura foram devidamente traduzidas e transcritas, assim como o intenso debate entre Don Mitchell, de um lado, e Peter Jackson, os Duncans e Denis Cosgrove, de outro. Este último compareceu com outro texto, no qual uma crítica radical é elaborada à geografia saueriana.

A religião como tema da geografia cultural teve a tradução e publicação de textos de Paul Fi Keler, geógrafo alemão, com experiência na Ásia na primeira metade do século XX, Paul Claval e Claude Rivière, este último sobre as peregrinações na África. A paisagem cultural teve nos textos de Carl Tröll e Donald Meinig duas importantes contribuições teóricas, enquanto o conceito de espaço vivido foi discutido por Jean Gallais, que considerou o mundo tropical.

Scott W. Hoefle e Jörn Seeman, radicados no Brasil, e Maria da Glória M. P. Santos, portuguesa, estão presentes na revista, assim como Paul Claval, com uma discussão sobre a geografia cultural no Brasil.

Os geógrafos brasileiros tiveram participação decisiva na construção do periódico em questão. Citamos, entre eles Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, Jorge Luíz Barbosa, Maria Geralda de Almeida, Monica Sampaio, Paulo César da Costa Gomes, Roberto Lobato Corrêa, Rogério Haesbaert, Sonia Ramagem, Zeny Rosendahl, Zilá Mesquita, e Wherter Holzer. Religião, música popular, literatura, percepção espacial, regiões culturais, paisagem e geografia humanista estão entre os temas tratados.

Espaço e Cultura não tem números temáticos, mas em alguns, dois ou três artigos de mesma natureza indicam uma certa especialização. Neste sentido particularmente relevante é o número 11-12 que contém, além da apresentação do tema da diversidade religiosa, de Zeny Rosendahl, seis outros textos que derivam de trabalhos de monografia de bacharelado por ela orientados.

Fornecer bibliografias, especializadas aos leitores brasileiros, é parte integrante da política editorial de Espaço e Cultura. Foram, assim, produzidas referências bibliográficas sobre a teoria na geografia cultural, a geografia da religião, a geografia humanista, a paisagem e a literatura e a música popular. Adicionalmente foram apresentados os conteúdos, desde o início ao ano de 1999, dos dois mais importantes periódicos de geografia cultural, Ecumene, publicado em Londres, e Géographie et Cultures, publicado em Paris.

Uma resenha encerra, usualmente, cada número de Espaço e Cultura. Trata-se sobretudo de livros vinculados à geografia cultural em geral, “readings” e livros-textos, ou vinculados à religião e escritos por geógrafos e não-geógrafos.
Durante sete números Espaço e Cultura teve como capa a figura de A Casa de Farinha de Percy Lau. Em cada número variava apenas a cor. A partir do número 9-10 a capa reproduzia a tela de Vitor Meirelles Panorama da Primeira Missa no Brasil. Também apenas a cor variava.

Veja aqui a capa e o sumário da Revista 17-18. (clique aqui)